Sobre o Lorde Velho

Quando vivo, Rodrigo Emanoel Fernandes passou pelo mundo quase desapercebido. Mesmo as circunstâncias de seu falecimento e seu local de descanso eterno são obscuros e meramente especulativos. Talvez tenha sido alvejado numa trincheira na frente ocidental, ou contraído gripe espanhola enquanto morava sozinho num quarto insalubre na riviera francesa, ou quem sabe tenha se afogado no naufrágio de um cargueiro, enquanto cruzava o Pacífico Sul como clandestino. Seja como for, quer tenha sido sepultado numa vala comum coberta de cal virgem ou desaparecido nas profundezas do oceano, o fato é que a morte lhe agraciou com aquela aura de dignidade e relevância que apenas os falecidos parecem gozar. Morto vagou pelo mundo com maior desenvoltura e até um certo carisma, arregimentando afetos, parcerias e amores. Travou conhecimento com artistas, poetas e errantes que, de comum e insuspeitado acordo, outorgaram ao extinto o título de Lorde Velho. Espíritos refinados, de sorriso raro e beleza tímida, que preferem vinho seco ao suave, a razão ao sentimento e o espírito ao gracejo. Passou alguns anos cursando Geografia na Unesp e mais alguns em Artes Cênicas na UEL, acabando por se tornar um dos organizadores do lindamente insensato evento itinerante de arte da performance conhecido como Festival de Apartamento, no qual outros fantasmas noturnos convergem periodicamente à caça de mistérios e maravilhas. Obteve o título de doutor pela Faculdade de Educação da UNICAMP, enquanto, paralelamente e de forma mais informal, foi construindo uma reputação de diletante em ocultismo e de (quase) erudito nos gêneros e subgêneros que formam o amplo universo do horror gótico old school, o que o levou a colocar esses conhecimentos a prova dirigindo o espetáculo de teatro de sombras Memento Mori - Um Ensaio Para a Morte e a intervenção cênica Phantasmagoria com a fugaz "Companhia da Sombra", antes de seguir adiante para novos caminhos voltados para esses temas melancólicos tão apropriados à sua peculiar condição de existência. E se, em meio a tudo isso, houve quem notasse uma certa transparência nos seus contornos nas horas da madrugada que antecedem o amanhecer, um tremeluzir indistinto, como se, na verdade, não houvesse ninguém ali, teve a amabilidade e a sensatez de guardar sua observação para si.