The Search For Sanity - Ingmar Bergman e o Horror

 "'A Hora do Lobo' é um desses filmes góticos belos e assustadores, que usa as palavras de modo muito sugestivo. Aquela hora terrível por volta das 3 da manhã quando pessoas costumam morrer e bebês nascer, mas também quando acordam e não conseguem dormir ou, se dormem, têm pesadelos terríveis. A hora, talvez, na qual o subconsciente aflora. É uma descrição maravilhosa para esse filme."
O horror, mesmo hoje em dia, é um gênero curiosamente encabulado.

Crítica, público, até mesmo cineastas podem ser facilmente flagrados dizendo coisas como: "Na verdade não é exatamente horror, é um drama com toques macabros" ou "meu filme não é de horror, é um suspense psicológico", sempre que um filme do gênero surpreende com uma qualidade acima da média, como se o fato de ser tão bom fosse contraditório a ser apenas um "filme de terror".

Algumas frases que já flagrei vindas de figuras inteligentes que admiro e respeito (grifos meus):

"...um filme de terror feito por um diretor que mantém um saudável desprezo pelas convenções do gênero" (consegue imaginar alguém usando essa mesma frase pra se referir a um drama, comédia ou aventura?)

"Frankenstein: mais do que horror e monstros" (título de um dos melhores artigos que já li sobre o clássico de Mary Shelley)

"...sempre que algum cineasta de talento apenas mediano se dedica a injetar pompa, seriedade e tragédia a um gênero que visa prioritariamente a diversão (caso do horror), o resultado é a irregularidade e a monotonia." (essa veio de um crítico de cinema que pesquisa o gênero academicamente, e de forma impecável!)

Claro que a produção em massa de terrorzinhos padrão americano médio tem parte da culpa dessa falta de auto-estima, mas o problema na verdade é antigo, quem conhece bem a história do gênero sabe que esse tipo de coisa tem a ver com uma má compreensão generalizada do potencial do horror como forma de expressão artística.

E se tem uma coisa que dá um nó na cabeça dos mais preconceituosos, é quando um cineasta que seja amplamente reconhecido como um grande mestre da sétima arte, alguém dito como um "autor", realizador de "filmes de arte", com estética refinada, experimentalismo formal, etc, etc, escolhe o horror como forma de expressão.

E mais ainda: quando esse autor não nega e nem disfarça dizendo que fez um "suspense psicológico", um "drama mórbido", ou qualquer outro eufemismo. Pelo contrário, declara orgulhosamente: "Estou filmando um filme de horror".

É ótimo pra dar uma bagunçada na cabeça de tipos antagônicos de público, desde os que consideram "cinema europeu" e "filmes de arte" como chatices esnobes (e que muito provavelmente diriam que Ingmar Bergman não entendia os pressupostos do gênero, ou que fez um horror intelectual demais, ou muito chato e patati patata...), até os que consideram o horror como desprezível "exploitation" apelativo, superficial e artisticamente pobre (esses costumam se enrolar nos malabarismos argumentativos mais delirantes para negar que seu ídolo tem sim um filme de terror no currículo).

Independente de toda polêmica: Hour of the Wolf é uma obra-prima... e mete medo pra caraio.

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