Embustes do Lorde: The Curse of the Cat People (1944)

A Maldição do Sangue de Pantera, de Robert Wise, é o mais subestimado dos filmes produzidos por Val Lewton para o lendário ciclo de horror da RKO nos anos 40.

Embora seja, de fato, uma continuação de Sangue de Pantera (tem os mesmos personagens e prossegue com suas trajetórias) não dá continuidade ao tema já devidamente fechado do original, ao invés disso usa os personagens já conhecidos pra trabalhar uma temática completamente diferente: os sonhos, medos e fantasias da infância.

Não se trata de um filme de horror, embora tenha muitos elementos góticos e macabros, é uma história sobre pais e filhos e sobre a herança de sombras e máculas que assombram as crianças de muito antes de seu nascimento. Os pecados dos pais elevados a uma potência mítica ao se tornarem parte do imaginário das crianças.

É um filme triste e sensível (alguns corações cínicos poderiam dizer "piegas") que merece ser conhecido sem os inevitáveis preconceitos provocados pelas imposições marketeiras impostas de fora pra dentro pela RKO.

Nem Val Lewton e nem os diretores do ciclo tinham qualquer poder de decisão em relação aos títulos, que já eram determinados antes mesmo de qualquer roteiro ser escrito (situação que foi ironizada nos primeiros minutos da obra-prima I Walked With a Zombie, onde a protagonista recita o título em voz alta e comenta "Estranho de se dizer, não?").

A ideia era viabilizar a venda do longa e a captação de recursos de pré-produção usando títulos escalafobéticos que prendessem a atenção de possíveis investidores. Se tinham pouco ou nada a ver com os filmes em si, não fazia diferença, desde que funcionassem bem como chamarizes em tempos pré-marketing viral internáutico.

Toda a história do cinema popular de gênero até pelo menos meados dos anos 90 (e, de certo modo, mesmo hoje) é marcada por esse tipo de prática, vide os títulos exagerados de produtoras como a Hammer, Amicus, etc. (no documentário Inside the Fear Factory, o co-presidente da Amicus Productions, Max Rosenberg, "assume a culpa" por títulos absurdamente genéricos como ...And Now the Screaming Starts!, que praticamente serviam pra qualquer roteiro que se decidisse filmar).

Parafraseando o velho ditado do "Nunca julgue um livro pela capa": "Nunca julgue um filme de horror pelo título". ;)

Os Embustes do Lorde não são críticas ou resenhas, são pensamentos livres e ligeiros sobre filmes, livros, quadrinhos, teatro, enfim, temas diversos relacionados ao universo do horror gótico e do fantástico old school, tentando seguir o princípio de, preferencialmente, destacar o que merece ser (mais) conhecido e/ou revisto e omitir o que não merece e/ou já é conhecido até demais.

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