Embustes do Lorde: Kolchak - The Night Stalker (1974)

A primeira vez que ouvi falar em Kolchak: The Night Stalker foi no livro Dança Macabra, que Stephen King publicou em 1980, e graças a isso evitei o seriado por muitos e muitos anos, afinal o "mestre do horror" em pessoa falou que era uma merda, não é? Pra que perder tempo? Ahh, os meus anos juvenis, dando meus primeiros passos como fã do gênero, acreditando cegamente em argumentos de autoridade.

Hoje a principal lembrança que tenho desse livro do King é o momento em que ele cita Planet of the Vampires, do Mario Bava, como um exemplo de "porcarias que só servem para dar parâmetro pra reconhecer os filmes bons" (quase joguei o livro na parede ao reler isso mais recentemente). Pois é... depois dessa, é claro que o velho Carl Kolchak merecia ao menos uma chance, não?


Óbvio que não se trata de nenhuma obra-prima. nem teria como ser, mas a série surpreende sim, e muito, mesmo dentro das limitações dos paradigmas em voga em 1974 (episódios stand-alone, orçamento barato, necessidade de repetir uma fórmula em todos os episódios, etc.), conseguindo se manter divertida e até ocasionalmente arrepiante na maior parte de sua única temporada (especialmente o episódio "Horror In The Heights", cultuado como um dos melhores da série, escrito por Jimmy Sangster, roteirista habitual da Hammer Films).

É curioso que apesar da fama de trash, são surpreendentemente poucos os episódios que caem de fato no trash (lembrando aqui que uso o termo não no sentido de uma estética intencional, mas sim de algo tão ruim que acaba ficando divertido). Na maior parte do tempo a série contorna muito bem sua falta de recursos evitando depender de efeitos especiais, focando as tramas na investigação, na construção de mistérios e no charme turrão do protagonista. Quando chegava o momento de mostrar mesmo alguma coisa sobrenatural a tendência era optar por saídas discretas e rápidas, o que sem dúvida era uma estratégia sábia. Mesmo que o monstro fosse decepcionante (como é o caso até mesmo do já citado "Horror In The Heights") é apenas uma aparição de poucos segundos contra 50 minutos de episódio, não é difícil relevar. Foi só lá pelo fim da temporada (quando, sem dúvida, o desespero do cancelamento começou a bater) que tranqueiras como o infame motoqueiro sem cabeça ou o cara com roupa de crocodilo começaram a dar as caras. Suspeito que, mesmo sendo poucos, esses episódios foram TÃO trash que acabaram queimando o filme da série inteira.

Mas, tirando isso, não é difícil perceber porque Kolchak acabou se tornando um precursor dos muito mais dignificados Arquivo X, Fringe, Supernatural etc. (aliás, é MUITO melhor que Supernatural, nem se compara). Darren McGavin é tão carismático que na maior parte do tempo nem questionamos porque essas maluquices sobrenaturais acabavam sempre caindo na mão dele (afinal, ele é só um repórter normal, não um obcecado pelo oculto, como Mulder, ou um caçador quase profissional de monstros, como os irmãos Winchesters) e prontamente relaxamos na poltrona para acompanhar sua ranhetice, suas brigas eternas com seu editor italiano Tony Vincenzo e o humor negro delicioso com que encarava cada caso macabro que aparecia. Infelizmente, a audiência da época não se conectou com a proposta e a série foi cancelada antes mesmo que alguns roteiros já escritos chegassem a entrar em produção.

O lançamento da Screen Vision, assim, é precioso, ainda que incompleto, já que o melhor material de Kolchak não está incluso nesse pacote: os dois telefilmes que servem como "pilotos" para a série, The Night Stalker, de 1972, e The Night Strangler. de 73. Ao contrário do seriado, nem mesmo o "mestre" King se atreveu a falar mal desses dois, afinal temos Dan Curtis e Richard Matheson envolvidos na produção e quem manja sabe que isso não é pouca bosta. Mas, enfim, apesar dessa mancada, é uma iniciativa a se prestigiar. Com seus acertos e erros "Kolchak e os Demônios da Noite" é uma parte importante da história do horror na mídia televisiva e merece mais consideração do que o "mestre" estava disposto a dar.

Os Embustes do Lorde não são críticas ou resenhas, são pensamentos livres e ligeiros sobre filmes, livros, quadrinhos, teatro, enfim, temas diversos relacionados ao universo do horror gótico e do fantástico old school, tentando seguir o princípio de, preferencialmente, destacar o que merece ser (mais) conhecido e/ou revisto e omitir o que não merece e/ou já é conhecido até demais.

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