Um Motivo para Assistir a Versão Estendida de "Halloween 6" (1995)

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Depois de muitos e muitos anos, finalmente as circunstâncias (e minha paciência) se harmonizaram pra que eu tivesse chance de conferir a tal "versão do produtor" do famigerado Halloween 6 - The Curse of Michael Myers (agora disponível com qualidade HD nos melhores sites de torrent).

"Versão do produtor"?! WTF? Pois é, bizarro, não? Acredito que seja o único caso em que a versão estendida de um filme é um producer´s cut, não um director´s cut. Afinal, normalmente são os produtores que fazem lambança nos filmes por razões mercenárias e os diretores usam os director´s cut para ter a chance de restaurar suas obras mutiladas (exceto nos casos picaretas, claro). Mas Halloween 6 foi uma produção tão absurdamente tumultuada, tão cheia de tretas internas que acabou gerando não um, mas dois filmes-frankenstein. É uma longa história que pode ser encontrada com mais detalhes em sites gringos, mas por agora basta dizer que a "versão do produtor" (no caso Moustapha Akkad, "dono" da franquia até sua morte em 2005) tem fama de ser infinitamente melhor do que a catastrófica versão de cinema, que quase enterrou de vez a saga do primeiro grande psicopata imortal do cinema, Michael Myers.

Halloween 6 era, de fato, indefensável, por mais boa vontade que o espectador tivesse. E olha que eu tenho um fraco por filmes que se convenciona tachar como ruins a priori (até curto o Halloween 5, que a maioria dos fãs odeia), mas nesse caso não tem como: o filme é uma zona sem pé de cabeça na sua tentativa bizarra de transformar um simples slasher numa rocambolesca trama de conspiração mística druida como forma de "explicar" a imortalidade de Michael, algo que obviamente nunca precisou de explicação. Parece que o roteirista, Daniel Farrands, até tinha boas intenções, era mega fã da série e meio que tentou costurar todos os elementos disparatados que foram sendo introduzidos pelo caminho (incluindo, me parece, até as doideiras druidas de Halloween 3, que a princípio nada tinha a ver com o resto da série) naquilo que, pretensamente, seria uma conclusão épica. Farrands alegou que seu roteiro sequer chegou a ser filmado na íntegra, mas desconfio que não teria feito tanta diferença. Na maioria das vezes, fãs apenas acham que sabem o que é melhor para seus objetos de culto.

E, afinal, o producer´s cut é mesmo melhor? Não, é tão ruim quanto a versão dos cinemas... mas é diferente. Na verdade não se trata de uma simples versão estendida ou mesmo uma remontagem de cenas: a última meia hora de filme é completamente diferente nas duas versões. O problema é que nenhuma delas funciona, nem como filme independente e muito menos como um pretenso desfecho de uma saga. A producer´s cut ao menos é mais bem amarrada e a trama faz mais sentido do que a versão de cinema, dá pra sacar aonde queriam chegar, mas continua senso insatisfatória, a despeito da fama quase mítica que foi ganhando com o tempo.

Mas então qual é o tal motivo para assistir essa versão do produtor? Simples: Donald Pleasence.

Vampiros de Olhos Dourados - The Toho´s Bloodthirsty Trilogy

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A sequencia de abertura de Lake of Dracula, de 1971, serve praticamente como carta de intenções para toda essa trilogia dirigida por Michio Yamamoto. Estamos numa praia rochosa, diante de um céu de cores magníficas e irreais, que nos remete (intencionalmente ou não) aos cenários pintados estilizados e oníricos de Kwaidan (1964) e outros kaidan-eiga dos anos 60 e 70. A pequena Akiko é avisada pelas outras crianças para não ficar sozinha na praia, mas o cachorro foge e a menina, claro, corre atrás dele. Os dois entram através de uma passagem no paredão rochoso que desemboca numa trilha, levando-os até, pasmem, uma mansão gótica no estilo inglês vitoriano! 😳

Lake of Dracula (1970)
A essa altura já bem desconcertados, continuamos seguindo a menina que, curiosa, se aproxima da mansão, até ser surpreendida por um velho sinistro que surge do meio das folhagens. A menina se assusta e foge pra dentro da mansão. A câmera subjetiva faz um arco que nos (re)apresenta ao decrépito cenário do salão gótico, com escadarias cheias de teias de aranha e até uma armadura medieval (européia!) antes de nos revelar um piano onde está sentada de costas uma moça usando camisola branca. Sim, a tradicional dama etérea da literatura gótica. A menina se aproxima e toca a moça, que se vira lentamente revelando um rosto tão lindo quanto pálido, para então desabar no chão. Ouve-se um guincho medonho, a menina olha pra trás e vê nas escadarias, olhando pra ela, um homem horrendo, vestido de preto, com o rosto inteiramente branco e sangue escorrendo dos lábios: o vampiro! Num corte rápido temos um hiper-close do olho dele que, ao contrário do tradicional vermelho sangue, é dourado, como se emulasse o Sol.

A Casa Desabitada (1875): Fantasmas Não Pagam Aluguel

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São tantas as histórias sobre casas mal assombradas que a gente acaba tendo a impressão de já ter visto todas as variações possíveis do subgênero... mas é só dar uma boa olhada no passado (que, como eu sempre digo, é onde se encontram as maiores novidades) e a gente acaba topando com alguma coisa, tipo... que tal uma história de casa mal assombrada contada do ponto de vista da imobiliária que precisa aluga-la? 😉

O livro em questão é a novela "The Uninhabited House", publicada em 1875 por uma certa Mrs. J.H. Riddell. Escondida assim sob o nome do marido (o que sempre me faz lembrar do maravilhoso comentário de Vanessa Ives, em Penny Dreadful, a respeito do nome de casada de sua amiga Mina: "você não parecia se importar com essa perda de si mesma...") estava a escritora irlandesa Charlotte Eliza Lawson Cowan ou Charlotte Riddell, uma das mais renomadas autoras de histórias de fantasmas na língua inglesa, na tradição dos anuários de Natal.

Assim como a maioria dos escritores do período (especialmente as escritorAs) é praticamente inédita no Brasil e foi com grande surpresa que topei com uma edição de A Casa Desabitada numa das minhas regulares explorações em sebos. O volume, publicado em 1994 num pequenino e elegante formato de livro de bolso, fazia parte de uma fugaz mas bem bacana coleção da Editora Marco Zero: "Coleção Mistério: Obras-Primas do Suspense Sobrenatural", que até onde pude investigar não passou de quatro títulos.

Capa da edição original de
"The Uninhabited House"
Claro que com uma premissa dessas o humor negro tão tipicamente britânico não poderia deixar de ser um dos principais elementos da novela. Conduzindo a narrativa com um delicioso sendo de ironia, Charlotte (espero que ela me perdoe a intimidade, mas não me sinto confortável de usar o nome do marido que, no fim das contas, só lhe trouxe infelicidade e dívidas) vai nos apresentando uma pitoresca lista de personagens descritos com um incondicional carinho e afeição, independente de suas mais que marcantes falhas de caráter e idiossincrasias, com destaque para a adorável/detestável Srta. Blake, a herdeira do imóvel que o escritório dos "Srs. Craven e Filho" (na verdade só o filho no momento em que a história começa) luta para manter alugado e assim garantir a subsistência da insuportável/encantadora velhinha (tenho uma certa mania de visualizar meus atores e atrizes favoritos nos "papéis" de certos personagens dos livros que leio: visualizem Bette Davis e terão uma ideia da impressão causada pela Srta. Blake 😁).

Ainda que o Sr. Craven (o filho, que poderia ser vivido tranquilamente por Peter Cushing) e seus funcionários não acreditem em fantasmas, o fato é que a aprazível mansão à beira do Tâmisa não consegue manter nenhum inquilino por muito tempo. Todos rompem os contratos e dão o fora depois de no máximo alguns meses ou até menos, o que torna a propriedade e sua dependente um pepino que ganha ares míticos na própria história da firma.

Charlotte Riddell aos 43
Assim, sem abandonarmos o escritório na Buckingham Street durante mais da metade do livro, vamos conhecendo a história da Casa Desabitada indiretamente, até o momento em que o narrador, um dos funcionários da firma, passa a se envolver pessoalmente nos eventos e enfim nos leva com ele para o interior da mansão. Essa estrutura ajuda a intensificar o elemento de dissimulação tão vital para a narrativa gótica clássica, com os fenômenos sobrenaturais nos sendo apresentados em segunda ou terceira mão através de contratos, documentos, relatos de testemunhas e autos de processos, formando círculos concêntricos que vão se estreitando até nos render ao fantástico sem precisar jamais vulgariza-lo. Não é, todavia, um dos mistérios góticos mais criativos ou mesmo chocantes, a solução nos capítulos finais não deixa de ser até levemente desapontadora, traindo um certo viés folhetinesco na novela. Mas a essa altura já fomos mais do que fisgados pelo charme do livro e pelo calor humano indiscutível dos personagens. Não é difícil fechar a última página com um grande (e bobo) sorriso no rosto. 😊

Coleção Mistério: O Amante Fantasma, de Vernon Lee; A Casa Desabitada, de Charlotte Riddell,
O Fantasma dos Guirs, de Charles Willing Beale e A Bruxa Âmbar, de Wilhelm Meinhold.

Infelizmente toda a "Coleção Mistério" está esgotada e não há edição digital. Mas acredito que não é difícil encontrar exemplares a preços razoáveis em sebos. Até onde pude sondar, a única outra obra da autora disponível em português é o conto "A Casa Velha na Alameda Vauxhall" (The Old House in Vauxhall Walk), publicado na coletânea O Grande Livro das Histórias de Fantasmas da editora Objetiva/Suma das Letras (que, embora o título não deixe claro como deveria, traz exclusivamente contos de mulheres escritoras de literatura gótica, da era vitoriana até o fim do século XX, um tesouro indispensável para entusiastas e pesquisadorxs). Em português de Portugal temos também algum outro conto que não consegui identificar em Fantasmas Vitorianos da Europa-América.

Pouco, não é? Pouco para a autora em questão e pouco para as autorAs de literatura gótica em geral (que, por sua vez, não são poucas).  #FicaADica para as editoras que investem no fantástico: há um grande filão nos sendo devido... que pouco a pouco começa a ser explorado. 😉