Horrors of Malformed Men: Exploitation Japonês + Butoh Dance = Feiticeiros que assombram Fronteiras

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Conheço muito menos do que gostaria a respeito do cinema de horror japonês, embora adore praticamente tudo o que vejo (exceto, claro, aquelas pencas de j-horror que surgiram na onda do interesse ocidental por Ringu e Ju-On, esses é preciso saber peneirar pra achar os realmente foda). Mas faz relativamente pouco tempo que comecei a ter acesso aos grandes clássicos do "gótico" japonês como Kwaidan (em sua versão completa), O Gato Preto (Kuroneko), Ghost Story of YotsuyaOnibaba, etc., e comecei a ter uma ideia melhor do estilo, temática e diretores representativos dos kaidan-eiga, além de me familiarizar com outros subgêneros como bakeneko, yōkai, kaiju, seguindo por fim para as correntes mais extremas do exploitation japonês, com um mínimo de noção de seu contexto.

Cartaz de "Horrors of Malformed Men" (1969), com
os siameses impossíveis em destaque.
Porém... não chega a ser fácil. Tem muita informação contraditória ou simplesmente errada na internet, especialmente sobre o cinema extremo japonês mais obscuro, e o risco de acabar replicando besteira é sempre grande. Há uma forte tendência de rotular ciclos inteiros como "trash" (digo e repito, detesto essa palavrinha desgastada que já não significa mais nada) e/ou cultuar apenas sua "bizarrice" aos olhos ocidentais, o que acaba criando muitos preconceitos.

Essa era a noção que eu tinha de "O Horror dos Homens Deformados" (Kyôfu kikei ningen: Edogawa Ranpo zenshû), de Teruo Ishii, a de que se tratava de uma mera variação de A Ilha do Dr. Moreau, baseada na obra do escritor japonês Tarō Hirai, que assinava com o pseudônimo de Edogawa Ranpo (leia em voz alta e vai entender o trocadalho do carilho ). Uma variação com alta dose de esquisitices entre os "deformados" criados pelo "cientista louco", como bestialismo, um impossível casal de gêmeos siameses de sexos diferentes e uma infinidade de fetiches e imagens grotescas, enfim um caso exemplar de cinema apelativo, gore, trash e de mau gosto (os adjetivos mais usados para descreve-lo em sites e blogs internet afora).

Embustes do Lorde: Vampire Circus (1972)

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Adrienne Corri, o anão Skip Martin e o David "Darth Vader" Prowse
O circo chega numa cidade infestada pela peste. Questionada a respeito, a cigana que os acompanha não hesita em responder: "Viemos para roubar as moedas dos olhos dos mortos".

A capinha feita para NÃO vender DVD,
da London Films
Esse é apenas um dos inúmeros momentos brilhantes de Vampire Circus (conhecido no Brasil como "O Vampiro e a Cigana" e "O Circo dos Vampiros") um filme que realmente me surpreendeu.

Mesmo sendo fã incondicional da Hammer Films, eu sempre adiava assistir por puro preconceito (em parte justificado pela péssima escolha da capinha do DVD da London Films), mal sabia que acabaria se tornando meu filme favorito do estúdio.

Ok, exagerei um pouco agora (na verdade meus favoritos variam com certa regularidade) e talvez seja injusto fazer comparações, pois Vampire Circus é diferente demais de todos os outros filmes da Hammer.

Ainda que eu ame praticamente todos, aprendi a esperar deles aquela sobriedade inglesa, um certo comedimento e contenção, deixando os delírios e propostas mais escandalosas para as produções italianas e francesas do mesmo período.

Vampire Circus, entretanto, é extravagante, surreal, absurdo, carregado com uma sensualidade exuberante que eu nunca tinha visto de forma tão lasciva num filme da Hammer, nem mesmo na trilogia Karnstein e demais produções do ciclo dito como "apelativo e decadente" do estúdio nos anos 70.


Os vampiros do circo assombrado são, ao mesmo tempo, apaixonantes e perturbadores (o que é a cena de Milovan e Serena, a mulher-tigre?! Morri!), as cenas envolvendo ataques à crianças assustam e angustiam com sua forte insinuação de pedofilia, o roteiro injeta uma bem vinda ambiguidade nos personagens, onde tanto "vilões" quanto "heróis" alternam-se em momentos de calorosa simpatia ou imperdoável malignidade, mantendo o espectador permanentemente desconcertado.

Domini Blythe
Afinal, de cara testemunhamos uma criança ser oferecida ao Lorde Vampiro pelas mãos de sua amante, porém logo percebemos que a turba de linchadores que invade o castelo está usando os assassinatos como um mero pretexto. Sua real motivação é vingar o adultério e a ousadia da mulher ao exercer sua sexualidade livremente. Da mesma forma, a vingança (em parte justificável) do circo maldito não se volta de cara para os responsáveis diretos, os patronos da aldeia que outrora submeteram a esposa adúltera à tortura e ao banimento, mas sim para os inocentes, as crianças e jovens que em pleno desabrochar da sexualidade se vêem previamente condenados pelos pecados dos pais.

É um jogo perverso no qual vampiros e humanos, vítimas e algoses, realidade e sonho, se confundem e misturam num estranho e atemporal microcosmo onírico onde não há para quem "torcer" ou "se identificar", apenas se deixar perder. Acredito que somente na, já citada, trilogia Karnstein, especialmente em Twins of Evil, a Hammer ousou ser tão moralmente ambígua, mas não de forma tão desvairada quanto aqui.

Lalla Ward, uma das mais queridas companions
da série clássica do Doctor Who
A fotografia e direção são deslumbrantes, repletas de soluções cênicas não-naturalistas, exóticas e "mágicas" (a sala de espelhos, os vôos do casal de gêmeos acróbatas, as transformações, só pra citar algumas) sustentando uma atmosfera de quase conto de fadas, daqueles em que a qualquer momento o lobo pode arrancar um pedaço da Chapeuzinho com uma dentada (ou o contrário).

Datado? Sem dúvida, ainda mais com o divertidíssimo visual glam rock do conde Mitterhaus, porém, por mais que pareça cômico hoje em dia, até isso contribui para a atmosfera exótica do filme. E afinal, como todo bom cinéfilo sabe, filmes só são datados pra quem se deixou prender numa única época e numa única lógica/estética cinematográfica. Para quem se permite derivar, cinefilia não tem época. 

À quem curiosar e tiver dificuldade pra achar nos rincões bravios da internet, um belíssimo release em HD pode ser baixado aqui.

)



Os Embustes do Lorde não são críticas ou resenhas, são pensamentos livres e ligeiros sobre filmes, livros, quadrinhos, teatro, enfim, temas diversos relacionados ao universo do horror gótico e do fantástico old school, tentando seguir o princípio de, preferencialmente, destacar o que merece ser (mais) conhecido e/ou revisto e omitir o que não merece e/ou já é conhecido até demais.

The Search For Sanity - Ingmar Bergman e o Horror

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 "'A Hora do Lobo' é um desses filmes góticos belos e assustadores, que usa as palavras de modo muito sugestivo. Aquela hora terrível por volta das 3 da manhã quando pessoas costumam morrer e bebês nascer, mas também quando acordam e não conseguem dormir ou, se dormem, têm pesadelos terríveis. A hora, talvez, na qual o subconsciente aflora. É uma descrição maravilhosa para esse filme."
O horror, mesmo hoje em dia, é um gênero curiosamente encabulado.

Crítica, público, até mesmo cineastas podem ser facilmente flagrados dizendo coisas como: "Na verdade não é exatamente horror, é um drama com toques macabros" ou "meu filme não é de horror, é um suspense psicológico", sempre que um filme do gênero surpreende com uma qualidade acima da média, como se o fato de ser tão bom fosse contraditório a ser apenas um "filme de terror".

Algumas frases que já flagrei vindas de figuras inteligentes que admiro e respeito (grifos meus):

"...um filme de terror feito por um diretor que mantém um saudável desprezo pelas convenções do gênero" (consegue imaginar alguém usando essa mesma frase pra se referir a um drama, comédia ou aventura?)

"Frankenstein: mais do que horror e monstros" (título de um dos melhores artigos que já li sobre o clássico de Mary Shelley)

"...sempre que algum cineasta de talento apenas mediano se dedica a injetar pompa, seriedade e tragédia a um gênero que visa prioritariamente a diversão (caso do horror), o resultado é a irregularidade e a monotonia." (essa veio de um crítico de cinema que pesquisa o gênero academicamente, e de forma impecável!)

Claro que a produção em massa de terrorzinhos padrão americano médio tem parte da culpa dessa falta de auto-estima, mas o problema na verdade é antigo, quem conhece bem a história do gênero sabe que esse tipo de coisa tem a ver com uma má compreensão generalizada do potencial do horror como forma de expressão artística.

E se tem uma coisa que dá um nó na cabeça dos mais preconceituosos, é quando um cineasta que seja amplamente reconhecido como um grande mestre da sétima arte, alguém dito como um "autor", realizador de "filmes de arte", com estética refinada, experimentalismo formal, etc, etc, escolhe o horror como forma de expressão.

E mais ainda: quando esse autor não nega e nem disfarça dizendo que fez um "suspense psicológico", um "drama mórbido", ou qualquer outro eufemismo. Pelo contrário, declara orgulhosamente: "Estou filmando um filme de horror".

É ótimo pra dar uma bagunçada na cabeça de tipos antagônicos de público, desde os que consideram "cinema europeu" e "filmes de arte" como chatices esnobes (e que muito provavelmente diriam que Ingmar Bergman não entendia os pressupostos do gênero, ou que fez um horror intelectual demais, ou muito chato e patati patata...), até os que consideram o horror como desprezível "exploitation" apelativo, superficial e artisticamente pobre (esses costumam se enrolar nos malabarismos argumentativos mais delirantes para negar que seu ídolo tem sim um filme de terror no currículo).

Independente de toda polêmica: Hour of the Wolf é uma obra-prima... e mete medo pra caraio.

Quando a "Versão do Diretor" é Pura Picaretagem...

2 comentários:
Um dos maiores presentes que os cinéfilos ganharam com o surgimento das mídias digitais (LD, DVD e, por fim, Bluray) foi a inédita (comercialmente falando) valorização da integridade dos filmes em todos os aspectos, tanto no que se refere ao formato de tela (no VHS não fazia diferença se o filme era em proporção 2.35:1, 1.85:1, etc., tudo era formatado pra tela quadrada das TVs de tubo) quanto da manutenção dos cortes originais, sem censura ou edições reduzidas para TV ou mercado de home video.

Em vida Bava só viu essa versão bizonha
de seu "Lisa e o Diabo" nos cinemas.
Daí foi um passo para a ascensão dos "director´s cut", ou seja, a oportunidade para que diretores que tiveram seus filmes mutilados por produtores inescrupulosos na época do lançamento conseguissem enfim lançar as versões que realmente intencionavam, com total controle criativo. Graças a isso, nós, cinéfilos pudemos finalmente assistir Lisa and the Devil do jeitinho que Mario Bava queria (leia aqui a trágica história de como Bava viu sua obra prima ser transformada num filme trash) ou Aliens - O Resgate, de James Cameron na sua duração completa, não na versão "mais sessões por dia" que foi exibida originalmente nos cinemas, isso só pra citar alguns casos mais emblemáticos.

Porém, tudo tem dois lados: essa valorização do "director´s cut" acabou gerando alguns fenômenos aberrantes. De repente todos os blockbusters passaram a ter "versões do diretor" em DVD mesmo que o diretor já tivesse total controle criativo para lançar a versão de cinema. Ou seja, os filmes começaram a ser lançados propositalmente "mutilados" apenas para ganhar uma grana a mais no lançamento da "versão completa" em DVD e bluray, o que não apenas banalizava o conceito de "director´s cut", como acabava se tornando um desrespeito ao frequentador assíduo de cinema, que - no limite - comprava ingresso para ver versões reduzidas ou até mesmo não finalizadas.

Embustes do Lorde: The Curse of the Cat People (1944)

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A Maldição do Sangue de Pantera, de Robert Wise, é o mais subestimado dos filmes produzidos por Val Lewton para o lendário ciclo de horror da RKO nos anos 40.

Embora seja, de fato, uma continuação de Sangue de Pantera (tem os mesmos personagens e prossegue com suas trajetórias) não dá continuidade ao tema já devidamente fechado do original, ao invés disso usa os personagens já conhecidos pra trabalhar uma temática completamente diferente: os sonhos, medos e fantasias da infância.

Não se trata de um filme de horror, embora tenha muitos elementos góticos e macabros, é uma história sobre pais e filhos e sobre a herança de sombras e máculas que assombram as crianças de muito antes de seu nascimento. Os pecados dos pais elevados a uma potência mítica ao se tornarem parte do imaginário das crianças.

É um filme triste e sensível (alguns corações cínicos poderiam dizer "piegas") que merece ser conhecido sem os inevitáveis preconceitos provocados pelas imposições marketeiras impostas de fora pra dentro pela RKO.

Nem Val Lewton e nem os diretores do ciclo tinham qualquer poder de decisão em relação aos títulos, que já eram determinados antes mesmo de qualquer roteiro ser escrito (situação que foi ironizada nos primeiros minutos da obra-prima I Walked With a Zombie, onde a protagonista recita o título em voz alta e comenta "Estranho de se dizer, não?").

A ideia era viabilizar a venda do longa e a captação de recursos de pré-produção usando títulos escalafobéticos que prendessem a atenção de possíveis investidores. Se tinham pouco ou nada a ver com os filmes em si, não fazia diferença, desde que funcionassem bem como chamarizes em tempos pré-marketing viral internáutico.

Toda a história do cinema popular de gênero até pelo menos meados dos anos 90 (e, de certo modo, mesmo hoje) é marcada por esse tipo de prática, vide os títulos exagerados de produtoras como a Hammer, Amicus, etc. (no documentário Inside the Fear Factory, o co-presidente da Amicus Productions, Max Rosenberg, "assume a culpa" por títulos absurdamente genéricos como ...And Now the Screaming Starts!, que praticamente serviam pra qualquer roteiro que se decidisse filmar).

Parafraseando o velho ditado do "Nunca julgue um livro pela capa": "Nunca julgue um filme de horror pelo título". ;)

Os Embustes do Lorde não são críticas ou resenhas, são pensamentos livres e ligeiros sobre filmes, livros, quadrinhos, teatro, enfim, temas diversos relacionados ao universo do horror gótico e do fantástico old school, tentando seguir o princípio de, preferencialmente, destacar o que merece ser (mais) conhecido e/ou revisto e omitir o que não merece e/ou já é conhecido até demais.