Pistas, Sonhos e (Auto) Ilusões - Uma Defesa do Último Episódio de "Twin Peaks"


ATENÇÃO: ALERTA MÁXIMO DE SPOILERS (Esse artigo foi escrito para um público específico: gente que assistiu todos os episódios de Twin Peaks - de preferência mais de uma vez - e ainda não se cansou de especular a respeito da série. Se você não assistiu Twin Peaks nem uma vez, faça um favor a si mesmo: baixe tudo e assista, depois pode voltar aqui)

Notícia daquelas que caem como uma bomba no universo da cultura pop. Depois de 25 anos, Mark Frost e David Lynch anunciam o lançamento de uma nova série Twin Peaks, dando continuidade a uma trama que, para o bem ou para o mal, todos já consideravam encerrada. Impossível não ter sentimentos ambíguos a respeito. Talvez, em outra época, pudesse ser motivo de júbilo incondicional, afinal David Lynch era um daqueles cineastas raros que só lançavam obras-primas, uma atrás da outra (o choro é livre, seguidores de Rubens Edwald Filho). Mas agora, quando o cinema de massa parece estar devorando a si mesmo numa obsessão por remakes, prequels e sequencias tardias de grandes obras do passado é difícil deixar de engolir em seco. Por todo lado pipocam anúncios de "revivals" de filmes e séries lendários, a grande maioria cheirando ao mais puro oportunismo e (hiper)exploração de marcas já consagradas. O fato de vários deles serem realizados pelos mesmos autores dos originais já deixou de ser garantia de respeito e qualidade a muito tempo, vide o abominável "quarto" Indiana Jones, a "versão do diretor" picareta de O Exorcista ou o trash-movie mais caro da história, Prometheus.

Uma promessa?
Por outro lado, ainda que o velho Lynch não lance nenhum longa desde o já longínquo Inland Empire, é fato que ele nunca desapontou. Saber que ele e Mark Frost vão cuidar pessoalmente de toda essa nova série, com Lynch dirigindo todos os episódios (vale lembrar que ele dirigiu apenas seis dos 30 da série original) é suficiente para manter o interesse de ao menos pagar pra ver (ou baixar pra ver, rs). Mas acima disso, há é claro o elemento enigmático que já fazia parte da própria série e que sempre deixou os fãs com a pulga atrás da orelha: a frase que o "fantasma" de Laura Palmer disse ao Agente Cooper no fabuloso último episódio: "Eu o verei novamente em 25 anos". É... não tem como não ficar no mínimo curioso.

Mas independente de tudo isso, me incomoda um pouco que o anúncio dessa nova série passe a impressão de que um antigo debate entre os fãs foi encerrado de fora pra dentro: Afinal de contas, Twin Peaks teve um final? Para uma quantidade significativa de fãs, não, não teve, o series finale seria na verdade apenas um season finale que fracassou em seu objetivo de resgatar a audiência perdida durante a segunda temporada, fazendo com a série fosse cancelada sem um final definitivo, como muitas outras. Para esse conjunto de fãs, a aterradora última cena, na qual descobrimos que o Agente Cooper foi possuído pelo "espírito maligno" de BOB, simplesmente não podia ser o fim. Nos fóruns, convenções e conversas de boteco, esses fãs lamentam e criam suas próprias versões de como teria sido a terceira temporada abortada, onde veríamos as consequências da sinistra pergunta/promessa: Como está Annie? Como está Annie?

Uma das imagens mais aterradoras que a TV já produziu.
Para esses fãs, a nova série não apenas confirma o que sempre sentiram, que Twin Peaks nunca teve um final, como sequer seria uma "nova" série de fato, mas sim a tão desejada terceira temporada, onde a história inacabada finalmente teria seu desfecho. Oficialmente, nem o IMDb e nem qualquer outra fonte tratam a nova produção como uma "terceira temporada", mas isso pouco importa para fãs convictos de que uma espera de 25 anos vai enfim ser recompensada.

Queria aqui nadar mais um pouquinho contra a corrente (pra variar) e finalmente fazer por escrito a minha defesa do último episódio da segunda temporada de Twin Peaks como, sim, o final da série. Não um final em aberto fruto de um cancelamento, mas sim como um desfecho definitivo, digno, coerente e, na minha sincera opinião, perfeito para essa série que transformou os paradigmas das séries de TV. Digo mais: independente do que vier a acontecer na nova série, não alterará o status do "Episódio 29" (na contagem oficial o piloto é o "Episódio 00") como o melhor final que Twin Peaks poderia ter tido (até porque ninguém se mantém o mesmo depois de 25 anos, incluindo Frost e Lynch, e o que quer que eles façam agora será algo novo e diferente da série original, independente até de suas intenções).

Dizer que essa é uma opinião polêmica é pouco. Uma fuçada rápida no google já demonstra quão grande é o número de fãs que amam Twin Peaks, mas odeiam o final com todas as forças (os mais radicais defendem que o "verdadeiro" final é o "Episódio 16", que fecha o caso Laura Palmer, e desconsideram tudo o que vem depois). E mesmo os que amam o series finale (normalmente fãs de David Lynch e/ou cinéfilos mais avançados em geral) ainda assim lamentam que a série tenha parado ali. "O último episódio é fantástico, talvez o melhor da série toda, não podia acabar ali, dá uma puta vontade de ver o que vai acontecer depois!" é o que costumam dizer, resumidamente. Esse é o ponto em que divirjo: não só não tenho vontade de ver o que aconteceria depois, como sequer acho que deveria haver um depois daquela arrasadora cena final.

Mesmo depois de 25 anos, muitos não se conformam com
os créditos finais nessa cena.
Mas vamos por partes. Sendo você, que está me lendo, um fã de Twin Peaks que viu a série inteira de cabo a rabo, o filme e tudo o mais, existe uma grande probabilidade estatística de que esteja em um dos dois grupos que acabei de descrever. Assim, certamente você tem uma série de argumentos para justificar porque não é aceitável considerar o "Episódio 29" como o final da série e é bem possível que já esteja procurando o campo de comentários pra joga-los na minha cara. Segure as pontas um pouco, pois vou resumir esses argumentos em dois grandes tópicos que me servirão de guias na minha defesa. Vamos ao primeiro:

1) Não há nem porque discutir. Os próprios autores afirmaram em um monte de entrevistas e documentários que o season finale da segunda temporada foi planejado pra tentar reacender o interesse da série para uma renovação.

Talvez você se surpreenda, pois não vou negar isso. Ainda que David Lynch seja famoso por raramente responder perguntas diretas sobre suas intenções com seus trabalhos, Mark Frost, por outro lado, é um grande linguarudo. De fato, ele afirma com todas as letras no documentário "Secrets From Another Place" que o finale foi escrito para ser um cliffhanger, uma última e desesperada tentativa de sustentar o interesse da audiência o suficiente para conseguir a aprovação da terceira temporada aos 45 do segundo tempo. Na verdade, Frost diz que sua intenção era repetir a mesma estratégia que usara no final da primeira temporada: "A minha visão daquele último episódio da primeira temporada era de que precisávamos de um recurso de vendas para que eles comprassem a segunda temporada. Porque, claramente, havia mais que queríamos fazer. Então eu tentei usar todos os ganchos em que consegui pensar." O objetivo do roteiro escrito para o finale da segunda temporada, supostamente, seria a mesma coisa: criar dúzias de ganchos, não concluir nada, fazer a audiência implorar pra voltar. "E o que montamos foi um grande dilema para a 3a temporada, com Cooper se transformando em herói e vilão que é o caminho que seguiríamos. (...) E, de novo, tentamos criar todo tipo de gancho para as pessoas quererem voltar e ver o que acontece. Fizemos a nossa parte.".

Caso encerrado? Não tão rápido, caro padawan. Pra começo de conversa é complicada essa história de analisar uma obra artística pelo prisma do que "era pra ter sido". Intenções de autor são interessantes para um estudo histórico, de contexto, etc, mas a obra acabada já não tem mais relação com o que o autor queria ou não fazer. A obra acabada simplesmente é! Está no mundo, pertence agora ao público, à cultura. Ainda que hoje vivamos num contexto em que o discurso sobre a obra se tornou quase que uma mídia em si (a famosa cultura dos extras de DVD/Bluray, que admito que adoro), teoricamente ninguém precisa entrevistar o autor para se apropriar de um filme, uma série, um livro ou uma HQ. A obra é que está em questão, não o discurso do autor e não é nada incomum que um filme entre para a história do cinema por méritos (e deméritos) que sequer foram previstos. Se a intenção do autor fosse mesmo tão determinante, "Plam 9 for Outer Space" seria um clássico do horror, não uma das mais hilárias comédias cult que o cinema já produziu (Ok, peguei pesado aqui, rss).

Bastidores do series finale.
Agora, se isso não te convence, beleza, vamos então, por um momento, considerar que a intenção do autor seja sim determinante e vamos olhar com ainda mais atenção para o documentário "Secrets From Another Place". Logo depois da fala de Frost seguem-se três depoimentos de outros artistas envolvidos na produção da série. Primeiro Carel Struycken, que interpreta o Gigante no "Episódio 29": "O último episódio foi a mais desvairada produção que já presenciei. E acho que nunca mais verei nada igual. E até onde posso dizer, foi tudo no improviso. Filmamos noite adentro. Acho que acabamos de manhã. E havia um monte de coisas estranhas acontecendo no set.". Logo depois vem Harley Peyton, escritor e produtor da série, co-autor do roteiro do "Episódio 29": "Havia a sensação, talvez baseando-se na audiência, que este seria o último. Mas David entrou lá e encarou e fez o episódio. O roteiro que tínhamos montado, não sei se ele jogou fora ou deixou na mesa. Mas o que fez foi muito diferente e brilhante. Então, acho que David sabia, de certa forma que era como se despediria.". E, finalmente, Robert Engels, também escritor e produtor e também co-autor do roteiro do episódio final: "Não pensamos que haveria a 3' temporada. Você faz planos para o caso, tínhamos algumas boas idéias. Todos tinham idéias legais para a possível 3a temporada, mas eu acho... acho que acabamos." (grifos meus, claro).

É só um decorador de sets tentando não aparecer na
filmagem, não precisa ter tanto medo. ;)
Ou seja, aparentemente Mark Frost era o único trabalhando com vistas a uma terceira temporada. Todos os demais tinham consciência que estavam encaminhando a série para seu desfecho. Infelizmente eu nunca encontrei um depoimento do próprio Lynch a respeito do episódio final. Como disse antes, ele detesta comentar esse tipo de coisa. Mas quem conhece bem a obra dele sabe que a possibilidade do roteiro ter sido "largado na mesa" e a história ter sido recriada durante o próprio processo de direção é algo muito fácil de imaginar. A própria mitologia de Twin Peaks foi, em grande parte, criada dessa forma, basta lembrar que BOB, Mike, o Black Lodge e suas "entidades", tudo isso surgiu no improvisado desfecho da versão européia do piloto, uma sequencia de quase meia hora que sequer fazia parte do roteiro.

Se há alguma dúvida, sugiro prestar atenção no próprio tom que Lynch impôs para o episódio e comparar com o season finale da primeira temporada. Frost dirigiu o "Episódio 7" realmente como um capítulo aberto, não há nada lá que sequer sugira qualquer tipo de fechamento, seja narrativo ou estético. O episódio é um desfile de frases terminadas em reticências, num ritmo acelerado e vibrante que culmina com Cooper sendo baleado por um pistoleiro desconhecido. É quase inconcebível imaginar como seria se, por qualquer razão louca, Twin Peaks tivesse sido cancelada ali (não que essa possibilidade existisse, com a série na crista da onda como estava).

O "Episódio 29" é completamente diferente. Desde os primeiros minutos o tom é outro. Se há reticências, são "reticências finais", não insinuam mudanças ainda por vir, mas sim um destino manifesto, inevitável, travado. Os supostos "ganchos" não parecem funcionar como tais, como no "Episódio 7", talvez porque Frost os escreveu como "ganchos", mas Lynch os filmou como "pontos finais". Durante os 30 primeiros minutos vemos um desfile de desenlaces para as últimas subtramas ainda em aberto da segunda temporada (as demais foram sendo fechadas no decorrer dos episódios anteriores, uma a uma, nenhuma delas foi deixada sem ao menos um último comentário). Podem não ser as conclusões que a audiência esperava ou queria, mas não há dúvida de que o tom com que foram apresentadas não dá margem para continuações.

Ganchos ou pontos finais?
Nadine recupera a memória, frustrando as esperanças de Ed e Norma finalmente resolverem sua relação e trazendo novamente à baila os trilhos de cortina. Frustrante? Sem dúvida, tão frustrante quanto a vida, mas sem dúvida é um desenlace para toda aquela bizarra situação de retorno à adolescência, como um círculo completo. Gancho mesmo foi quando Nadine terminou a temporada anterior tentando se suicidar e sendo encontrada por Ed. Se fosse como no "Episódio 7", o misterioso presente de Thomas Eckheart teria sido deixado em aberto, no mais puro "se querem saber o que é terão que voltar temporada que vem". Ao invés disso foi revelado numa cena literalmente explosiva, que fechou de uma vez por todas as trajetórias de vários personagens importantes: Andrew, Pete (e, com eles, tudo o que ainda restava em aberto da subtrama de Josie e os Packards) e Audrey, cuja história, sejamos francos, já havia acabado a muito tempo. Ben Horne chegou ao ponto culminante de sua irônica transformação de um adorável e assumido crápula para um hipócrita auto-iludido cujos arroubos de bondade causam ainda mais dor e destruição do que suas canalhices prévias. Um tema central em Twin Peaks: as duas faces que, no fim, se revelam a mesma coisa, uma verdade que nem uma família aparentemente perfeita como os Hayward poderia escapar. Todos tem segredos e a reaparição súbita da Senhora Horne, sumida desde o início da série, vem nos lembrar disso, nesse episódio cheio de rimas narrativas e aspas que se fecham.

Cenas e falas que se repetem, aspas que se fecham.
Como entender a irônica reaparição de Heidi, a garçonete do Double R, que só apareceu pra trabalhar no piloto e no finale (atrasada nas duas vezes e repetindo a mesma desculpa) senão como um fechar de aspas, bem no estilo de humor negro de Lynch? É perturbador, sem dúvida. Assim como Bobby e Shelly basicamente repetindo suas falas do piloto, Andy e Lucy alheios a tudo em seu romance ingênuo que deu voltas e mais voltas e acabou da mesma forma que começou. A sensação que se destaca no "Episódio 29" é que depois de tudo o que aconteceu, nada mudou, como num pesadelo. Os que não morreram continuaram os mesmos, os caminhões de madeira continuam passando, o vento ainda uiva nas árvores, tudo está como sempre foi em Twin Peaks. Quando Sarah Palmer, trazida pelo Dr. Jacoby, entrega a mensagem de Windom Earle para o Major Brigs, a expressão de resignada aceitação no rosto do Major diante daquela voz vinda do abismo é significativa. Não há urgência, o fim sempre foi inevitável. Havia pistas por toda parte, como disse a Senhora do Tronco numa de suas introduções: "Mas o criador do jogo é esperto. As pistas, apesar de nos cercar, são de alguma maneira confundidas com outras coisas. E estas outras coisas, a interpretação errada destas pistas é o que chamamos de nosso mundo."

E aqui chegamos na segunda grande objeção dos fãs em considerar o "Episódio 29" como o final de Twin Peaks:

2) Não faz sentido. O Agente Cooper era um símbolo de tudo o que há de melhor e mais positivo no ser humano, como a série pôde terminar com ele se tornando BOB?! Isso contradiz tudo o que a série foi e não condiz com o personagem.

Contradição... ou inevitabilidade?
Aqui defender o meu ponto de vista não será tão simples como no primeiro tópico, pois entra em questão a livre interpretação de uma obra artística e seria muita pretensão de minha parte afirmar que a minha interpretação de Twin Peaks é a "correta" e outras estão "erradas". Apreciação artística simplesmente não funciona assim. Mas quero chamar a atenção para "pistas" (que estão na própria série, não em supostas intenções dos autores) espalhadas por inúmeros episódios, que permitem ao menos um tencionamento dessa interpretação mais corrente de que o fim da trajetória do Agente Cooper é abrupto e não-condicente com o que a série havia trabalhado antes com o personagem.

Um dos temas centrais de Twin Peaks sempre foi a dualidade, os horrores ocultos por trás de uma aparência de civilidade e bons costumes. A fachada de perfeição e inocência da jovem Laura Palmer, conhecida e querida de todos na cidade, mas cujos gritos internos de desespero jamais foram notados por ninguém (exceto pelos "estranhos", como Harold Smith, a Senhora do Tronco, etc.). A cena do funeral no "Episódio 3" é marcante nesse aspecto, com Bobby apontando a hipocrisia na cara de todos. Como poderiam não ter notado que Laura estava em perigo? Como podiam ser tão cegos? Basta olhar para Leland Palmer se jogando melodramaticamente sobre o caixão. Ou para Sarah Palmer, um verdadeiro retrato da mãe que se recusa a enxergar o abuso acontecendo dentro de sua própria casa. Mas com uma sagacidade ímpar, o episódio corta da cena do funeral diretamente pra Shelly Johnson fazendo piada do horror e desconforto que acabáramos de presenciar... e Shelly, com sua cara de anjo, era uma das personagens de "bom coração". A genialidade da série estava em pequenos detalhes como esse, muito mais do que nos grandes eventos.

O funeral de Laura Palmer.
A reação em cadeia desencadeada pelo investigação do assassinato vai revelando mais e mais segredos sinistros na supostamente pacata vida de Twin Peaks. Há corrupção, jogos de poder, incesto, relacionamentos abusivos, falsidade, culpa, violência, abandono. Até mesmo os personagens que pareciam mais íntegros ou ao menos equilibrados, como o Dr. Hayworth ou o Xerife Truman, revelam-se fraturados em algum momento. E a recíproca também é verdadeira: personagens que pareciam maus até o último fio de cabelo, sem esperança alguma de redenção, acabam revelando aspectos inesperados, como o abobado Leo Johnson sacrificando-se para salvar a esposa que tanto abusara, Ben Horne e seu surto esquizofrênico de bondade, ou o Major Briggs, que parecia uma caricatura de militar/pai reacionário e acaba se revelando um poço de sabedoria mística. E o que dizer do deliciosamente arrogante Albert e seu indescritível "Eu te amo, Xerife Truman"? Antes de mais nada, Twin Peaks jamais perdeu seu senso de ironia nonsense.

E em meio a tudo isso, chega à cidade esse agente do FBI que adora um bom café e parece a própria personificação de tudo o que existe de mais puro, singelo e positivo na humanidade. Não tem como não se encantar com ele, não? Seu otimismo é inquebrantável, sua amabilidade sem limites, sua confiança em suas faculdades e intuições é absoluta, como costuma acontecer com os grandes detetives da ficção, embora, ao contrário de um Sherlock Holmes, Cooper confie muito mais nos sonhos e mensagens do inconsciente do que na fria lógica racional.

Não parece perfeito demais pra ser verdade?

Bom demais pra ser verdade.
Cooper não parece real, parece uma caricatura de "positividade". E já que falamos em Sherlock Holmes, é interessante notar quão imediatamente o amável (mas intelectualmente limitado) Xerife Truman se torna o seu Watson. E, assim como Holmes, Cooper se mostra bem arrogante para com o suposto amigo em várias ocasiões, ainda que suas maneiras cordiais tendam a disfarçar condescendência com amabilidade. Mas a primeira pista real de que Cooper não é (ou, ao menos, não é apenas) o que parece ser, vem de sua aparente incapacidade de enxergar Twin Peaks como ela realmente é. Encantado com o cheiro dos pinheiros e o canto dos passarinhos, parece não notar que as vidas de quase todos ao seu redor está desmoronando, que ninguém mais além dele considera Twin Peaks um paraíso na Terra. Cooper mal presta atenção quando o Xerife o alerta sobre a presença de algo antigo e maligno naquelas matas. Nada abala sua empolgação ingênua e urbanóide com cada variação de pinheiro que conhece. Laura Palmer faria qualquer coisa pra fugir daquele lugar se tivesse tido a chance. Cooper quer se mudar para lá.

Há um diálogo no "Episódio 11" que torna essa estranheza evidente. O recém chegado Juiz Sternwood, claramente uma figura paterna muito querida por Truman e todos na delegacia, pergunta: "Sr. Cooper, o que acha do nosso cantinho do mundo?". O agente responde com seu tom positivo característico: "É um paraíso.". O juiz franze a testa e retruca, com ironia: "Esta semana, o paraíso inclui incêndio criminoso, vários homicídios e atentado à vida de um agente federal". Aqui é preciso prestar atenção na sutileza da reação de Cooper. Ele hesita, mas muito rapidamente complementa o comentário com um forçado "O paraíso é um lugar grande e interessante". O juiz apenas o ignora, com certo desdém.

Já ouviu a expressão: "Se você consegue se manter calmo e sereno quando todos já entraram em desespero... é sinal que você não entendeu a gravidade da situação". É por aí.

Cooper apenas encara a bebida, amuado.
É interessante notar que Cooper passa a aparentar desconforto na presença do juiz. Prestando atenção no "Episódio 12", nota-se que ele até comete a desfeita de não beber o drinque que o juiz oferece a ele e ao xerife durante o julgamento de Leo Johnson. Na verdade, ele mal dirige a palavra ao juiz, a não ser quando perguntado. Ainda assim, recebe um último conselho: "Eu o aconselho a tomar cuidado com o bosque. O bosque daqui é maravilhoso... mas é estranho".

Outras personagens abalaram a confiança aparentemente inabalável do Agente Cooper. Foram raros, por isso mesmo é bem significativo observar quais. Lembram da visita à cabana da Senhora do Tronco? Foi no "Episódio 5". Uma visita não programada, o objetivo da expedição era encontrar a cabana de Jacques Renault, mas no caminho o agente, os policiais e o doutor acabam topando com Margaret, que lhes oferece chá e biscoitos. Cooper não queria fazer essa parada e já ia recusar o convite quando é repreendido pelo policial Hawk (o que claramente o irrita). Toda a sequencia é muito interessante. Truman, Hawk e o doutor não só estão super a vontade (mesmo com o comportamento ríspido de Margaret) como aparentam compreender insinuações que o Agente Cooper, o único estranho naquela cabana, ignora totalmente. A Senhora do Tronco diz estar esperando por eles a três dias e insinua que o atraso era culpa dele. O tempo todo o agente é tratado com condescendência, como uma criança (chega a tomar um tapa na mão por tentar pegar os biscoitos na hora errada). Permanece amuado por toda a visita, fechado, inseguro, de uma forma que destoa do excesso de otimismo e falastrice que demonstrara até poucos minutos antes. O motivo me parece óbvio: Margaret tomou o seu controle da situação. Ela detém uma sabedoria que ele não compreende. Esse homem que fala com desenvoltura sobre intuição e "método tibetano", tão confiante a ponto de fazer toda a delegacia participar de um jogo de acertar a garrafa como método de investigação, agora parece incomodado com a ideia de fazer perguntas para um tronco. Curioso, não? Ainda mais se lembrarmos que ninguém na delegacia jamais questionou seus métodos bizarros. Por que tanta hesitação em devolver a cortesia?

"Vou ter mesmo que falar com um tronco?"
Apenas uma vez em toda a série o Xerife Truman duvidou dos métodos de Cooper. No "Episódio 15", quando o agente muda de repente de ideia em relação à prisão de Ben Horne, sem apresentar nenhuma razão lógica, coisa que já havia se tornado um hábito. Chega a ser espantoso que Truman não tivesse perdido a paciência antes, mas nesse ponto a situação chegou no limite, porque o xerife tinha acabado de dar voz de prisão a Horne! Como poderia voltar atrás sem mais nem menos, baseado apenas na intuição de Cooper? "Eu o apoiei até aqui. Mas chega de palavrório. Chega de sonhos, e visões, de anões e gigantes do Tibete e de toda a conversa fiada. Temos provas concretas contra Ben Horne." A reação do agente me soa quase como uma birra: "Tem razão, Harry. É o seu território. Às vezes, como alguém de fora, eu esqueço isso", em seguida dá as costas e vai embora, emburrado.

Reparem que, até agora, tirei tudo isso de episódios que antecedem a resolução do caso Laura Palmer, ou seja, antes dos episódios que muitos defendem que devem ser desconsiderados. Ou seja, independente de sua opinião sobre o "ponto de virada" em que a série começou a sair dos trilhos, as contradições de Cooper já estavam presentes, não foram desvios tardios de percurso. Além disso, do mesmo modo que defendo que as intenções de Mark Frost a respeito do finale não devem influir na sua leitura, o mesmo vale para os rumos que a série tomou após a fatídica revelação imposta pela ABC. É sabido que Lynch achava que o assassinato de Laura jamais deveria ter sido solucionado, e é um exercício interessante especular como teria sido se a ABC não tivesse pressionado tanto. Mas o fato é que não foi assim que aconteceu. O mistério que deu combustível ao seriado foi definitivamente fechado no "Episódio 16" e, de algum modo, a série precisava continuar apesar disso (naquela época não existia o conceito de cancelar uma série enquanto a audiência estivesse em alta, pouca importa se fosse melhor para a trama ou não). Não há como negar que, dali em diante, a coisa desandou. Não havia mais linha mestra para seguir, os mistérios se diluíram e a sequencia de episódios entre o 17 e o 23 teve momentos intragáveis de tão constrangedores. Do 24 em diante a coisa começa a melhorar novamente, embora a ideia de um "arqui-inimigo" do Agente Cooper tenha sido uma saída bem clichê como fio condutor.

O "arqui-inimigo" Windom Earle.
Entretanto, esse foi o rumo que a serie efetivamente seguiu e minha leitura do episódio final não pode deixar de levar essa fase em consideração. Dito isso, eu afirmo que nem tudo foi perdido nesses episódios. Ainda que com menos brilho, Twin Peaks continuou tendo momentos isolados de grande força, especialmente quando os astros convidados eram deixados de lado e a história retomava as trajetórias dos personagens principais. Afinal, embora as pessoas tendam a esquecer, inúmeras subtramas interessantes que estavam em andamento desde o começo da série continuaram em aberto quando o caso Laura Palmer foi encerrado. Inclusive, esse é um dos motivos para não ser possível aceitar o "Episódio 16" como o "verdadeiro" final, como querem os radicais. Só a trama do assassinato foi fechada nele (e ainda com pontas soltas). Por mais que parecesse, Twin Peaks nunca se resumiu a apenas esse mistério.

(Um aparte: Essa não é minha única ressalva a respeito do "Episódio 16". Sempre me pareceu que, sem a participação direta de Lynch no roteiro e na direção, o episódio em vários momentos parece desesperado para "explicar" o que aconteceu, definir o que é o BOB e como funcionava a "possessão" de Leland, sacrificando toda a ambiguidade no processo. Alguns diálogos são constrangedores de tão expositivos: "Talvez seja isso que BOB seja, o mal que os homens fazem". Chega a doer. O contraste com o maravilhoso e sensível "Episódio 14", onde Lynch finalmente revelou - mas não explicou - a identidade do assassino, é gritante. Lynch é um artista que sabe que o mero realismo não dá conta da realidade e que, para quem vivencia, nada nunca é simples. Não, jamais poderia aceitar o "Episódio 16" como final da série. Seria um final convencional demais para uma série tão maravilhosamente não-convencional)

Uma dessas histórias em aberto teve seu fechamento no "Episódio 20", quando Jean Renault, o gangster que havia escapado após o resgate de Audrey do Jack Caolho, tomou Cooper como refém numa casa isolada. Durante a tensa espera enquanto a polícia cerca o lugar, um diálogo inesperado ocorre entre o agente e o vilão. Permitam-me cita-lo na íntegra:

"Antes de você chegar aqui, Twin Peaks era um lugar simples"
"Antes de você chegar aqui, Twin Peaks era um lugar simples. Meus irmãos vendiam drogas para adolescentes e caminhoneiros. O Jack Caolho recebia bem os empresários e turistas. Pessoas calmas viviam uma vida calma. Então, uma moça bonita morreu, você chegou e tudo mudou. Meu irmão Bernard levou um tiro e morreu na floresta. Um pai em luto sufocou meu outro irmão com um travesseiro. Seqüestro. Morte. De repente, as pessoas calmas não estão mais calmas. De repente, o sonho simples tornou-se um pesadelo. Então, se você morrer, talvez seja o último a morrer. Talvez tenha trazido o pesadelo consigo. E talvez o pesadelo morra com você."

Talvez pudéssemos descartar tudo isso como a lógica distorcida de um bandido... mas não é tão simples quando levamos em consideração as outras contradições de Cooper que mencionamos até aqui. No fim desse mesmo episódio, Windom Earle entra de vez na história, um ex-parceiro psicopata que seguiu o agente até Twin Peaks. Difícil não associar isso com a ideia de "trazer o pesadelo consigo". Posteriormente entendemos que Cooper não foi inteiramente inocente no seu passado com Earle, embora os detalhes nunca tenham ficado muito claros. Mas o que mais impressiona na sequencia com Renault é a atmosfera sinistra da cena, envolta em escuridão, iluminada apenas pelas luzes dos carros de polícia e a expressão de Cooper. Não há a irritação demonstrada com a Senhora do Tronco, nem a insegurança diante do juiz. A expressão de Cooper é de serena aceitação, como se aquele discurso atingisse algo bem em seu íntimo. Cooper parecia concordar com Renault.

"Talvez tenha trazido o pesadelo consigo.
E talvez o pesadelo morra com você."
Momentos como esses foram raros na série, é claro, durante 90% do tempo o personagem realmente parecia um arquétipo de tudo o que um ser humano deveria almejar ser e é evidente que todos amávamos Cooper. Havia algo de profundamente acolhedor nele, nos sentíamos bem sempre que o personagem estava em cena. Mas, por isso mesmo, esses momentos de quebra são marcantes, desconcertantes mesmo. Tanto que tendemos a descarta-los ao lembrar da série, o que é um erro. Não só porque nos deixa despreparados para o impacto do episódio final, mas também porque compromete uma leitura mais profunda dos temas que a série trabalha. Ainda que com fases ruins e algumas subtramas sem muito interesse, Twin Peaks manteve sua essência nos detalhes, nas pistas, como diria a Senhora do Tronco, cuja interpretação errada poderia levar tudo a perder, especialmente no que se referia aos personagens centrais.

Pra ser sincero, eu mesmo não prestava muita atenção nesses momentos que estou colocando em destaque aqui. A maioria me passou batido quando vi a série pela primeira (e até pela segunda) vez. Até que, numa das vezes que revi o seriado desde o começo, topei com uma cena enigmática no "Episódio 6". O Dr. Hayward pergunta para o Agente Cooper se ele gostaria de alimentar Waldo, o pássaro cagueta. Nada mais natural fazer essa pergunta para um cara que vivia falando do cheiro dos pinheiros e querendo saber o nome das espécies nativas, não? Surpreendentemente, a resposta de Cooper é tão seca que até deixa o doutor sem graça: "Não gosto de pássaros".

Foi um susto pra mim, quase como se eu tivesse tomado um tapa: "Como assim Cooper não gosta de alguma coisa? Especialmente pássaros?" pensei primeiro. E depois: "Como eu não tinha prestado atenção nesse cena antes?". Não sei se existe algum significado especial nessa cena em particular, provavelmente não, mas o fato é que é estranha, destoa completamente daquilo que fomos levados e pensar sobre o Agente Cooper, ainda mais no contexto da primeira temporada, antes dos desvios e problemas da segunda. Era como uma nota destoante, um fio de cabelo fora de lugar naquela cabeça cheia de gel. Esse pequeno momento esquisito foi o que me chamou a atenção para todas as outras notas destoantes que comentei até aqui.

"Se você confrontar o Black Lodge com a
coragem imperfeita, ele aniquilará sua alma."
Tudo isso pra afirmar: não, a transformação de Cooper em BOB no episódio final não foi algo que surgiu do nada. A face sinistra de Cooper, o outro lado do espelho, o doppelganger, tudo isso esteve presente na série desde o início. As pistas estavam todas lá, nós é que não prestamos a devida atenção. Nós... e Cooper. Se resta ainda alguma dúvida, vejamos a cena (essa sim comumente bem lembrada pelos fãs) em que o policial Hawk chama a atenção do agente a respeito do White Lodge, no "Episódio 18":

"Cooper, você pode ser destemido neste mundo. Mas existem outros mundos. Meu povo acredita que o White Lodge é um lugar onde os espíritos que governam o homem e a natureza residem. Também existe uma lenda sobre um lugar chamado Black Lodge, que é o lado sombrio do White Lodge. Diz a lenda que todos os espíritos devem passar por lá a caminho da perfeição. Lá, você encontrará seu lado sombrio. Meu povo chama de o Habitante do Limiar. Mas dizem que se você confrontar o Black Lodge com a coragem imperfeita, ele aniquilará sua alma."

Percebam: Hawk (outro personagem que, mesmo tendo poucas falas como a Senhora do Tronco, sempre demonstrou ter algum tipo de sabedoria especial) está tentando avisar Cooper de que ele não está preparado para lidar com isso. Nessa fala ele descreve exatamente o que acabou acontecendo no episódio final. Cooper foi avisado, várias vezes, mas ignorou o aviso. Em parte porque ele tinha a motivação clichê de resgatar a mocinha em perigo (jamais negarei que Twin Peaks escorregou bastante em seus últimos episódios), mas principalmente porque ele jamais considerou Hawk e a maioria de seus amigos em Twin Peaks como pessoas cuja opinião deveria ser levada a sério, não de verdade. Cooper se mostrava tão confiante e tão magnânimo diante de todos na delegacia justamente porque se considerava superior a cada um deles. Bastava o aparecimento de alguém com tamanha força como o juiz para que ele se ressentisse.

"Um e o Mesmo"
Para mim é muito significativa a impaciência que a Senhora do Tronco sempre demonstrou com ele: ela sabe que Cooper está se iludindo. Ele não é tão evoluído e sábio quanto quer acreditar. Ele não enxerga a realidade como ela de fato é. Cooper está perdido, desde o começo, numa auto-ilusão. Num mundo de sonhos e fantasmas. Ele só vê o que quer ver. Sua mente é aberta para o fantástico, para os mundos além, para a intuição, mas lhe falta respeito, cautela, verdadeira atenção aos sinais. Ele encara todas as pistas como intrinsecamente positivas, jamais lhe ocorre que, especialmente depois da morte de Leland Palmer, o mal no bosque estaria lhe conduzindo como um patinho para sua própria perdição. Na verdade, ele sequer desvendou o caso Laura Palmer, todas as respostas vieram de sonhos, visões e entidades, muitas das quais, como o anão dançarino, o velhinho caduco e o Gigante (cujas pistas ele seguiu cegamente) se mostraram assustadoramente ambíguas em sua aparição final no Black Lodge. Cooper arrogantemente ignorou todos os alertas de que o mal no bosque era algo a se temer e respeitar, ignorou Truman, ignorou o juiz, ignorou a Senhora do Tronco. Não seria de se duvidar que ele jamais considerou seriamente a possibilidade de que enfrentaria o Black Lodge "com a coragem imperfeita". Mas diante do duplo demoníaco, sua reação imediata foi entrar em pânico e fugir (uma fuga sem esperança, claro). Muitos fãs pensam que a presença de Annie no Black Lodge foi o fator que abalou a "coragem perfeita" do agente. Até faz sentido... se a série não tivesse nos dado tantas pistas de que o buraco era mais embaixo. De fato, Cooper não fugiu de seu duplo apenas no episódio final. Ele esteve fugindo durante toda a sua vida.

Há uma cena, no "Episódio 17" em que Audrey diz para Cooper: "Você só tem um problema: é perfeito". Nem me atreverei a comentar a sabedoria expressa nessa fala.

O auto-engano como tema central na obra
de David Lynch.
Toda a rejeição ao episódio final é compreensível. Desolador é a palavra que mais se aplica. Sem dúvida, Twin Peaks teve um dos finais mais sombrios da história das séries de TV, é claro que é muito mais reconfortante imaginar que deveria ter havido uma continuação onde Cooper vencesse o mal e voltasse para a luz que sempre pareceu caracteriza-lo. Não duvido que Frost e, talvez, outros roteiristas tentassem isso se pudessem. Lynch, entretanto, é mais honesto, mais sincero, ele sabia, claro, que não havia nenhuma outra forma honesta de Twin Peaks terminar sem trair a si mesma. Ainda que descarrilhando em muitos momentos, Twin Peaks teve um final honesto. Desolador sim, mas não mentiroso, como teria sido um medíocre final feliz. Se há uma "moral da história", pra quem acha que histórias precisam de moral, seria aquela presente na própria obra de Lynch como um todo: muito pior do que descobrir que sob o gramado verde há insetos monstruosos, é fingir que eles não estão lá. A tragédia de Cooper é a mesma tragédia de Fred Madison, em "A Estrada Perdida", de Betty Elms/Diane Selwyn, em "Mulholland Drive", de Nikki Grace, em "Inland Empire", a tragédia de se descobrir perdido nos labirintos do próprio inconsciente, entre sonhos, sombras e fantasmas, um lugar da mais absoluta solidão pois ninguém pode segui-lo ali. A tragédia da auto-ilusão, do auto-engano: um tema recorrente em toda a obra de Lynch. Seus filmes costumam ser ditos como confusos e até indecifráveis, mas não é bem assim: são confusos por serem, invariavelmente, narrados do ponto de vista de personagens perdidos, auto-iludidos. Nós compartilhamos sua desorientação, sua visão nonsense do mundo ao redor. Quando conseguimos nos desvencilhar do ponto de vista deles, observa-los de fora, aí sim nos damos conta da tragédia (é relativamente mais fácil perceber isso em "Mulholland Dr."). Por outro lado, se você se identifica completamente com o personagem (o que, afinal, é nosso hábito ao consumir áudio-visual) pode acabar acreditando, por exemplo, que Twin Peaks é uma série essencialmente otimista e positiva, nunca percebendo que os "momentos felizes" que a série nos mostra são sempre carregados com uma estética do absurdo, do exagero, da caricatura, tão grotescos quanto os momentos de horror (pense na estranheza dos primeiros flertes de Cooper e Annie, nas micagens malucas de Bobby e Shelly ou nas epifanias do Major, não são apenas as danças desesperadas de Leland que denunciam rompantes de "felicidade forçada"). Quanto mais você acreditar no ponto de vista distorcido de Cooper a respeito de Twin Peaks, (e nós queremos acreditar, queremos muito, não só em Twin Peaks, mas na Hollywood de sonhos em que Diane se perde em Mulholland Dr.) mais desolador e incompreensível será o episódio final.

(Essa não é a única forma de entender o trabalho de David Lynch, não vou entrar aqui em aspectos mais formais e estéticos pois acabaria me perdendo e deixando esse artigo ainda mais longo do que já é, mas recomendo fortemente a clássica análise de Vladimir Safatle: David Lynch ou a arte de construir estradas com ruínas)

Alter-Egos?
A grande ironia é que nos últimos anos Lynch tem viajado o mundo todo vendendo ilusões, repetindo mantras de auto-ajuda com convicção fanática, insistindo que os problemas do mundo se resolveriam simplesmente se todos fizessem meditação transcendental todos os dias, duas vezes ao dia, quem sabe até jogando pedras em garrafas nas horas vagas? Lynch e Cooper sempre foram alter-egos e não é nada incomum que artistas obsessivos estejam sempre, ao fim e ao cabo, falando de suas próprias fraturas. Felizmente, é a obra que pertence ao mundo, não a vida pessoal do artista e se na vida Lynch talvez se iluda ou mesmo se traia, na arte, como já disse aqui, ele nunca conseguiu deixar de ser verdadeiro (talvez até a despeito de si mesmo, algo muito comum na história da arte). Esperemos que continue assim e, nessa nova série "Twin Peaks", o artista não traia a própria obra como tantos cineastas que sucumbiram à onda dos remakes e releituras. Mas se acabar acontecendo, tudo bem. Não abalará a Twin Peaks original, que já teve sua merecida conclusão, perfeita, definitiva e ressoante a ponto de manter sua força mesmo depois de 25 anos.

P.S. Quase não mencionei o filme "Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer" porque nele Cooper não é mais o protagonista e as poucas cenas em que aparece não contradizem em nada a análise que fiz a partir dos episódios da série (muito pelo contrário, eu diria, lembram de Phillip Jeffries apontando o dedo pra ele e gritando: "Quem vocês pensam que esse cara é?"). Mas achei melhor acrescentar esse pos-script pra que ninguém pense que eu sou da turma que desconsidera o filme como parte do "Universo Twin Peaks". Pelo contrário: sou da turma que ama o filme de paixão. ;)

"Quem vocês acham que esse cara é?"





8 comentários:

salomão machado disse...

Assisti ao último episódio hoje e fiquei um pouco desapontado quando descobri que a série havia sido cancelada e, portanto, que o último episódio pode não ter sido, de fato, o fechamento da trama.

Eu gostei do final e acho que, por mais contraditório que pareça, ele trouxe uma simetria até recorrente no audiovisual. Não achei satisfatório, entretanto, o fechamento (ou a falta de) dos personagens secundários, como Audrey, Donna, James e cia, porque acho que, na média, a história deles foi interessante e ocupou (muitas vezes de maneira inconveniente) boa parte dos episódios da série,então não soou como um fechamento "digno" pra mim.

Gostei muito da sua leitura e compartilho essas sensações de que o Cooper, em muitos momentos, demonstrou ser um personagem perturbador, um típico 'outsider', externo ao universo de Twin Peaks, e portanto, alguém vulnerável ao "desconhecido-porém-respeitado-pelos-aborígenes" místico que permeia esse universo.

Não sou 'iniciado' na obra de Lynch e devo assumir que cheguei a negligenciar parte da série, por muitos momentos clichês, isentos de profundidade, que pareciam, à mim, serem imputados apenas pela exigência que o formato seriado "90's" exige. Portanto, a leitura do seu texto me fez perceber que talvez eu tenha subestimado muitos detalhes que poderiam tornar a minha experiência muito mais rica. Mas nada está perdido. Pretendo reassistir em um futuro breve e vou prestar mais atenção nesses detalhes.

Ricardo Pereira disse...

Muito bom texto, assisti à série duas vezes e gosto muito do final. Antes de encarar pela terceira vez, voltarei aqui.

RENATO ALVES RENATO ALVES disse...

amei o final. chega de padrão para explicar tudo.

Rafael Mansano disse...

Ótima resenha. No entanto, o próprio Lynch confessou numa entrevista, dada ao Roda Viva em 2008 (tem no Youtube), que o final da série também o desagradou e que tanto ele como Mark Frost fizeram esse final com a esperança de que a ABC desse uma sobrevida para a série com uma terceira temporada.

Lorde Velho disse...

Bom, chamar aquele comentário lacônico no Roda Vida de "confissão" é um pouco de exagero ("...de certa forma também me desagradou..."; "...talvez pudessemos mudar aquele final de certa forma negativo..."). Lynch não conta nenhuma novidade, sempre foi sabido que havia uma intenção mais ou menos geral de continuar a série (como aponto no meu artigo ao citar as falas de Frost e a questão do paradigma de produção de séries de TV na época, que dificilmente permitiria que sequer se cogitasse não tentar continuar a qualquer custo). Acho curiosa a menção de que ele e Frost escreveram o final, já que o roteiro do "Episode 29" é creditado apenas a Mark Frost, Harley Peyton e Robert Engels. Suspeito que ele se referia à série como um todo quando falou em "Mark Frost e eu escrevemos" ou será que isso tem a ver com a afirmação dos atores e escritores sobre o roteiro "ter sido largado na escrivaninha" na hora da filmagem? Difícil saber, não? São tantas pessoas envolvidas numa série, tantos depoimentos contraditórios... Enfim... de qualquer forma o comentário pouco ou nada afeta as argumentações do meu artigo (se é isso que seu "no entanto" quer dizer), afinal, como eu deixo claro desde o começo (segundo parágrafo do tópico 1) minha leitura é sobre o que a série efetivamente é, não o que supostamente intencionava ser. E, além disso, é válido lembrar que esse não é bem o Lynch da época de Twin Peaks, é o Lynch já obcecado (pra não dizer fanático) por meditação transcedental, e a frase "aquele final de certa forma negativo" foi apenas uma das dezenas de menções da palavra "negativo" (ou "negatividade") feitas durante a entrevista. No fim, rever esse Roda Viva só me fez ficar ainda mais temeroso por esse revival da série ainda por vir. =/

Nois Critica Mermo disse...

Assisti hoje o último episódio e, pelo menos pra mim, ficou claro que aquele não foi o final definitivo. Fico com a declaração do Frost, de que realmente inseriu um monte de ganchos para tentar de alguma maneira pressionar a emissora por uma continuação da série. Por mais que o David Lynch seja um diretor com métodos bem particulares, não acho que ele colocaria um final definitivo tão aberto e cheio de pontas soltas como foi esse de maneira proposital. A série foi realmente cancelada antes de um desfecho definitivo. Só fico imaginando o drama de quem acompanhou a série na época e teve que esperar 26 anos pra ver a continuação e o desfecho, e os que até morreram antes disso. A única coisa que me intriga é a fala da Laura pro Cooper: "Nos vemos novamente em 25 anos", e 25 anos depois a série retornar. Pode ter sido só uma coincidência mesmo, ou uma ação bem esperta da Showtime que aproveitou a data citada na série pra resgatá-la.

Lorde Velho disse...

Rss... tranquilo, eu entendo como é tentador levar em conta apenas o depoimento que corrobora o que já queremos acreditar e desconsiderar ou racionalizar cuidadosamente todas as outras evidências apresentadas no artigo para não correr o risco de ser levado a outras conclusões. É algo extremamente comum e todos caímos nisso uma hora ou outra. Negação, de fato, tem sido o único contra-argumento que sempre levantam contra o que escrevi, até hoje ninguém sequer tentou derrubar a argumentação do artigo com outras argumentações. Talvez eu não deva nem ficar surpreso, a galera costuma discordar até da ciência usando apenas negação, quanto mais num assunto tão prosaico e subjetivo como uma série de TV, rss... Mas só pra não dizer que eu não tento deixar as coisas claras, aqui vai de novo, só pra esclarecer: eu nunca nego no artigo que havia uma intenção mais ou menos geral de toda a equipe em continuar a série, naquela época não existia sequer a possibilidade de se propor um final pra uma série, séries continuavam até cair no chão mortas, esse era o paradigma na TV. O que eu tento argumentar no artigo é que, independente disso, o Episódio 29 funciona maravilhosamente como um desfecho para essa série tão incomum, sendo um dos series finale mais impactantes da história da TV e perfeitamente coerente com os elementos que a série apresentou em toda a sua duração. É disso que trata o artigo, mais do que qualquer coisa, e minha argumentação toma como base o seriado como um todo e os depoimentos de vários dos envolvidos, desde Frost dizendo que escreveu um roteiro cheio de ganchos até o co-roteirista afirmando que Lynch deve ter jogado o roteiro fora, pois o que ele filmou "foi muito diferente e brilhante" (aliás, tentar acreditar que Lynch se incomodaria em fechar pontas soltas é o ápice da negação, quem acredita nisso corre o risco de ficar muito frustrado com essa nova Twin Peaks que está pra sair, rss...). Somando tudo isso eu obtive as bases para minha leitura da série e de seu final e assim a apresentei. Considerar o todo da minha argumentação ou apenas pinçar alguns pontos para nega-la por completo, bom, isso já é uma prerrogativa pessoal de cada um e não há muito que eu possa fazer a respeito disso. Como se diz: não se argumenta contra a paixão. ;)

Mah Regina disse...

Eu acho que na segunda temporada,tudo se perdeu,ficou até cansativo de assistir,as vezes parecia uma novela,cheia de romances e mocinhas, não gostei.E o final, decepcionante!não por ele ter encarnado o Bob,mas todo o restante, que mais parecia um improviso,
vou rever agora alguns pontos que vc citou, pra ver se faz algum sentido.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...