SOLITÁRIO ENTRE NÓS

...ao descer aquelas escadas toscas, sentindo a madeira ranger sob os seus pés, não pôde deixar de sentir uma opressão quase física. A sensação não lhe era de todo estranha: era similar ao mal estar que já o dominara tantas vezes em outras festas, a diferença agora estava na intensidade. Ao adentrar aquele porão (ou seria cripta?), tão secreto quanto solitário, escuro e fétido, foi dominado por uma angústia terrível, como se o peso de um mundo fosse despejado sobre suas costas. Caminhou por aquele lugar, tão amplo que seria necessário o tempo de uma vida para explora-lo e, quase que por instinto, seus passos o guiaram até ELE. Na penumbra das tênues lamparinas, ele era quase invisível. Jazia, sentado na poeira, encolhido e imóvel, abraçando as pernas contra o corpo numa posição fetal. Não tinha traços físicos ou características que o individualizassem: seu corpo era liso e amorfo, como um boneco de massa, sem feições, sem textura, sem cor, tão transparente que podia enxergar através dele. Não estava vivo, mas tampouco estava morto: tais conceitos não se aplicavam a ele. Estava inanimado agora. Era até difícil acreditar que, poucas horas atrás, na festa logo acima daquele porão tétrico, essa mesma figura não só possuía forma, cor e vida, como também emanava um encanto quase irresistível. Dançava, sorria, amava, cada gesto carregado de intensa vivacidade, tão belo que seria capaz de seduzir a quem quer que desejasse, como de fato o fez. Agora que todos haviam partido, não era mais nada. Toda beleza, toda vida, se fora.

Aproximou-se, fascinado, e, para seu espanto, ele repentinamente tomou cor, tomou forma, começou a respirar. Ergueu a cabeça e sorriu. O rosto... era o seu rosto...

Um comentário:

Raquel disse...

este é um dos meus preferidos!
beijo

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